Maca peruana para menopausa: para que serve de verdade

por Regina Vasconcelos

Po de suplemento amarelo em capsula aberta

Maca peruana é uma raiz cultivada nos Andes há séculos, tradicionalmente associada a energia, disposição e — o motivo pelo qual ela aparece tanto em conversa sobre menopausa — possível efeito sobre libido e bem-estar geral. Diferente da amora-miúda, da soja e da linhaça, a maca não é um fitoestrogênio: seu mecanismo de ação proposto é outro, envolvendo possível efeito sobre o eixo hormonal de forma indireta, sem se ligar diretamente a receptores de estrogênio.

Fui atrás da maca justamente na fase em que a libido tinha caído e eu estava procurando qualquer coisa que ajudasse. Tomei por cerca de dois meses, em pó, misturada na vitamina de manhã. Notei uma disposição geral um pouco maior — mas, sendo honesta, não consigo dizer com certeza se foi a maca, se foi eu ter voltado a dormir um pouco melhor naquele período, ou os dois juntos.

Pó de suplemento amarelo em cápsula aberta

O que os estudos indicam

Existem estudos pequenos sugerindo que a maca pode ter efeito positivo sobre libido e alguns sintomas de humor relacionados à menopausa, embora não pareça ter efeito relevante sobre fogachos especificamente — diferente da amora-miúda, da soja e da Cimicifuga, cujo foco principal de estudo é justamente esse sintoma. Ou seja: se o seu objetivo principal é aliviar calorão, a maca provavelmente não é a escolha mais indicada pela literatura disponível; se o interesse é mais voltado a energia e libido, ela aparece com mais frequência nas pesquisas.

Existem variedades diferentes

Maca amarela, vermelha e preta são as variedades mais comuns, e alguns estudos preliminares sugerem diferenças sutis de efeito entre elas — a vermelha, por exemplo, aparece associada a mais estudos relacionados a saúde óssea. Na prática, a maioria dos produtos vendidos no Brasil não especifica a variedade com clareza, o que dificulta uma escolha mais informada nesse nível de detalhe.

Pó colorido em recipientes sobre tábua de madeira

Por que a maca ficou tão associada à libido

A fama da maca como “planta da disposição e da libido” vem de séculos de uso tradicional nos Andes peruanos, onde era consumida por trabalhadores em altitudes extremas e, segundo relatos históricos, também associada à fertilidade animal e humana. Isso não é evidência científica no sentido moderno — é uso tradicional consolidado, que é diferente de ensaio clínico controlado. A pesquisa científica mais recente tenta entender se existe uma base real por trás dessa fama, e os resultados preliminares sobre libido e humor são um dos poucos pontos onde a maca aparece com mais consistência do que outros fitoterápicos populares da menopausa.

Dose e tempo até perceber efeito

Nos estudos disponíveis, as doses testadas variam bastante, mas costumam ficar entre 1,5 e 3 gramas por dia de maca em pó (gelatinizada, forma mais comum em pesquisa). O tempo de avaliação típico nos estudos é de 6 a 12 semanas de uso contínuo — foi mais ou menos o tempo que eu mesma dei antes de notar alguma diferença. Não existe uma dose “oficial” recomendada pela ausência de diretriz médica formal específica pra maca; o que existe são faixas usadas em pesquisa, que servem de referência, não de prescrição.

Maca ou outro fitoterápico: como escolher

Se o seu sintoma principal é fogacho, a literatura científica favorece mais Cimicifuga ou isoflavona de soja do que a maca. Se o que mais incomoda é energia baixa e queda de libido, a maca é a opção com mais estudo voltado justamente pra isso entre os fitoterápicos populares no Brasil. Elas não são mutuamente exclusivas — mas eu não recomendaria começar várias ao mesmo tempo, porque aí fica impossível saber o que está funcionando. Fiz um comparativo dos cinco naturais mais populares pra ajudar nessa escolha.

Cuidados

De forma geral, a maca é considerada bem tolerada, mas pode causar desconforto digestivo em algumas pessoas, principalmente em doses altas. Não há dados robustos de segurança pra uso prolongado além de alguns meses, então ciclos de uso (com pausas) costumam ser mais indicados do que uso contínuo indefinido. Como qualquer suplemento, vale conversar com a médica antes de começar, especialmente se você usa outros medicamentos.

Um cuidado específico que pouca gente menciona: a maca é da mesma família de vegetais crucíferos que o brócolis e a couve, uma família de plantas que em doses muito altas pode interferir na função da tireoide em pessoas sensíveis. O risco real com a dose usada em suplemento é considerado baixo, mas se você já tem alguma condição de tireoide diagnosticada, vale mencionar isso especificamente na consulta antes de começar a usar.

O que os ensaios clínicos realmente mostraram

Uma revisão sistemática que reuniu os ensaios clínicos randomizados disponíveis sobre maca e sintomas da menopausa encontrou resultado favorável nos quatro estudos incluídos, medidos por duas escalas usadas em pesquisa ginecológica — o Índice de Kupperman e a Escala Climatérica de Greene, que avaliam o conjunto de sintomas do climatério, não só um sintoma isolado. É um resultado positivo, mas vale o contexto: são só quatro estudos, com número pequeno de participantes cada um, bem diferente de ter dezenas de ensaios grandes como existe pra terapia hormonal. “Resultado favorável em revisão sistemática” não é sinônimo de “comprovado com o mesmo peso de evidência” — é um sinal positivo inicial que ainda precisa de confirmação em estudos maiores.

Recebi mensagem de leitora perguntando se isso significa que “a ciência já confirmou” a maca. Não exatamente — significa que o que existe até agora aponta numa direção favorável, o que já é mais do que muitos fitoterápicos populares conseguem mostrar. É a honestidade que tento manter aqui: nem descartar como “só marketing”, nem vender como comprovado além do que realmente é.

Maca e energia: o que pode estar por trás do efeito

Um achado interessante de um dos estudos sobre maca e mulheres na pós-menopausa: os efeitos positivos sobre sintomas psicológicos e função sexual não pareceram estar relacionados a conteúdo de estrogênio ou de andrógeno na planta — ou seja, mesmo os pesquisadores que estudaram isso de perto não conseguiram atribuir o efeito a hormônio nenhum presente na maca. Isso reforça a ideia de que, seja lá qual for o mecanismo real por trás da disposição que muita mulher relata, inclusive eu, provavelmente não é hormonal no sentido clássico — bem diferente da isoflavona, e mais parecido, nesse aspecto, com um efeito sobre o sistema nervoso ou sobre a percepção geral de bem-estar, que a ciência ainda está tentando mapear direito.

Confesso que isso me deixou mais tranquila em relação à maca do que em relação a outros fitoterápicos: se o mecanismo não é hormonal, o risco teórico de interação com tratamento hormonal ou de efeito parecido a estrogênio tende a ser menor. Não é motivo pra tomar sem orientação, mas ajuda a entender por que a maca costuma aparecer com perfil de segurança percebido como mais tranquilo entre as opções naturais.

Maca por fase da menopausa: perimenopausa, menopausa e pós-menopausa

Uma pergunta que pouca gente faz, mas devia: a maca funciona igual em qualquer fase do climatério? Os estudos que embasam o uso de maca incluíram mulheres na perimenopausa, na pós-menopausa inicial e na tardia, e de forma geral o efeito relatado sobre disposição e libido não pareceu depender muito da fase específica — diferente de fogacho, que tende a ser mais intenso perto da menopausa e vai diminuindo depois. Na prática, isso significa que não existe uma “janela certa” pra começar a testar maca, ao contrário de alguns tratamentos que fazem mais sentido numa fase do que noutra.

Onde a fase pode importar mais é na expectativa: quem está na perimenopausa, com ciclo ainda presente e libido oscilando junto com o hormônio, pode notar efeito diferente de quem já está anos na pós-menopausa, com o corpo estabilizado num patamar mais baixo e constante. Eu testei já na pós-menopausa, então não tenho comparação pessoal com a fase anterior — é um ponto que ainda fica em aberto até a ciência produzir mais estudo comparando as fases diretamente.

Perguntas frequentes

Maca peruana ajuda com fogachos?
A evidência científica é mais fraca para esse sintoma específico, comparada a outros fitoterápicos como Cimicifuga e isoflavona de soja.

Maca peruana é fitoestrogênio?
Não. O mecanismo de ação proposto é diferente, não envolvendo ligação direta a receptores de estrogênio.

Qual a melhor forma de tomar maca?
Em pó, misturada em vitaminas ou receitas, ou em cápsula. Não há consenso sobre dose ideal; siga a orientação do fabricante ou da sua médica.

Maca peruana tem contraindicação com problema de tireoide?
Não é proibida, mas merece atenção: a maca é da mesma família de vegetais que pode interferir na tireoide em doses muito altas. Quem já tem condição de tireoide diagnosticada deve avisar a médica antes de usar.

Posso tomar maca peruana e chá de amora ao mesmo tempo?
Fisicamente não existe contraindicação conhecida entre os dois, mas eu não recomendo começar vários fitoterápicos juntos — fica impossível saber o que está funcionando. Teste um de cada vez.

Existe estudo grande confirmando o efeito da maca peruana na menopausa?
Ainda não. O que existe é uma revisão sistemática reunindo quatro ensaios clínicos pequenos, com resultado favorável, mas o volume de pesquisa ainda é bem menor do que o de fitoterápicos como Cimicifuga ou isoflavona.

O efeito da maca é hormonal?
Pelo que os estudos indicam até agora, não parece ser. Pesquisadores que avaliaram sintomas psicológicos e função sexual em mulheres na pós-menopausa não conseguiram relacionar o benefício a conteúdo de estrogênio ou andrógeno na planta.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Converse com sua médica antes de iniciar qualquer suplemento.

Foto de Regina Vasconcelos

Escrito por Regina Vasconcelos

Professora aposentada, 53 anos, vivendo a pós-menopausa e escrevendo sobre o que aprendeu no caminho — sem jaleco, com experiência real. Conheça a história completa →