Depressão ou perimenopausa: como diferenciar e o que levar para a consulta

por Regina Vasconcelos

Mulher madura sentada no sofa abracando os joelhos

Desânimo, cansaço, perda de interesse pelas coisas e uma tristeza que não tem endereço: esses sintomas aparecem tanto na depressão quanto na perimenopausa, e é por isso que tanta mulher entre 45 e 55 anos sai do consultório com um antidepressivo sem que ninguém tenha perguntado sobre o ciclo menstrual dela. As duas coisas podem coexistir, uma pode estar mascarando a outra, e a diferença muda o tratamento. Este texto é sobre como fazer essa pergunta virar parte da sua consulta.

Preciso começar dizendo o que este artigo não é. Ele não é um convite pra você parar remédio nenhum, nem pra desconfiar do seu médico. Se você toma antidepressivo, continue tomando e converse com quem prescreveu antes de mudar qualquer coisa. Interromper por conta própria faz mal, e depressão é doença de verdade, que mata gente. O que eu quero é bem mais modesto: colocar uma pergunta a mais na mesa.

Mulher madura sentada no sofa abracando os joelhos

A consulta em que ninguém perguntou da menstruação

Eu tinha 47 anos e estava acordando às três da manhã encharcada, com o coração disparado. Nas manhãs seguintes eu chegava na escola já cansada, esquecia o nome de aluno que eu conhecia havia dois anos, e chorava dentro do carro no estacionamento antes de entrar. Achei que fosse esgotamento. Marquei consulta, contei tudo isso, e saí de lá com receita de ansiolítico e uma frase que eu levei anos pra digerir: “é a idade, é normal ter mais ansiedade nessa fase”.

Ela não estava errada sobre a fase. Estava errada sobre o motivo. Ninguém me perguntou se minha menstruação tinha mudado, e tinha, fazia mais de um ano. Eu tomei o remédio, dormi um pouco melhor, e continuei do mesmo jeito nas outras vinte e três horas do dia. Foram mais dois anos até uma outra ginecologista fazer a pergunta que faltava.

Conto isso porque descobri depois que a minha história é banal de tão comum. O que me irrita até hoje não é ter tomado o remédio, é ter passado dois anos sem que ninguém juntasse as peças que estavam todas em cima da mesa.

Por que essa fase é diferente das outras

Existe uma coisa que a pesquisa vem descrevendo há anos e que quase nunca chega até nós: a transição para a menopausa é um período de risco aumentado para sintomas depressivos, inclusive em mulheres que nunca tiveram depressão antes.

O maior estudo de acompanhamento sobre isso é o SWAN, sigla para Study of Women’s Health Across the Nation, que acompanha mulheres americanas ao longo de toda a transição. Os achados desse e de outros estudos populacionais apontam chance cerca de duas vezes maior de sintomas depressivos clinicamente significativos durante a perimenopausa, e um risco entre uma vez e meia e três vezes maior de um primeiro episódio ou de recaída, comparado com a fase que vem antes.

O detalhe mais interessante é que o vilão não parece ser o estrogênio baixo, e sim o estrogênio instável. Na perimenopausa os níveis oscilam de forma mais rápida e mais extrema do que em qualquer outra fase da vida adulta, com picos mais altos e vales mais fundos de um dia para o outro. É a variação, não o piso, que se associa aos sintomas de humor nesses estudos. Isso explica uma coisa que parece contraditória e que muita mulher relata: os sintomas emocionais costumam ser piores na perimenopausa do que depois, quando os hormônios já estabilizaram lá embaixo.

O que se parece e o que não se parece

A sobreposição é grande o suficiente pra confundir profissional experiente. Cansaço, sono ruim, desânimo, perda de interesse, dificuldade de concentração e irritabilidade estão nas duas listas. Não existe um sintoma emocional que seja exclusivo de uma coisa ou de outra, e quem prometer isso está simplificando demais.

O que costuma ajudar a diferenciar não é o sintoma emocional em si, é a companhia dele. Quando o desânimo chega junto com fogachos, com insônia que acorda sempre no mesmo horário da madrugada, com ciclo menstrual que mudou de padrão e com aquela névoa mental de esquecer palavras no meio da frase, a hipótese hormonal ganha peso. Ela não exclui a depressão, mas entra na conversa.

E existe um sinal que não deve ser relativizado por causa da idade nem por causa de hormônio nenhum. Se você tem pensamentos de morte, de se machucar, ou a sensação de que as pessoas ficariam melhor sem você, isso é urgência médica e não é assunto de blog. No Brasil, o CVV atende de graça pelo telefone 188, 24 horas por dia. Procure ajuda no mesmo dia.

Mulher madura com cartela de comprimidos e copo de agua na mesa

Não é hormônio contra antidepressivo

Essa é a parte em que a internet costuma estragar tudo, transformando o assunto numa briga de torcida. Existe gente vendendo a ideia de que todo antidepressivo prescrito nessa idade é erro médico, e existe gente que trata qualquer menção a hormônio como modinha. Nenhum dos dois lados está descrevendo a realidade clínica.

Na prática, a abordagem é individualizada e pode incluir psicoterapia, antidepressivo, cuidado com sono e estilo de vida, e, em casos selecionados, terapia hormonal da menopausa. Pode incluir mais de um desses ao mesmo tempo. Uma mulher com depressão maior instalada precisa de tratamento para depressão, tendo ou não perimenopausa junto. Outra, cujos sintomas de humor começaram junto com os fogachos e melhoram quando os fogachos melhoram, pode ter um caminho diferente. Quem separa esses casos é quem examina você, não um artigo.

Se a terapia hormonal for uma das opções colocadas na sua frente, escrevi um texto informativo sobre o que ela é, benefícios e riscos, sem recomendar nem desaconselhar, porque essa decisão é sua com sua médica.

Como fazer essa pergunta caber na consulta

Consulta é curta e a gente fica nervosa. O que funcionou pra mim foi chegar com as informações já organizadas, em vez de tentar lembrar de tudo na hora.

Duas semanas antes, comece a anotar três coisas por dia, em uma linha só: como estava o humor, como foi o sono, e se teve calor ou suor fora de hora. Anote também a data da última menstruação e como o seu ciclo mudou no último ano. Na consulta, em vez de dizer “estou pra baixo”, diga a frase completa: “meu humor mudou nos últimos meses, no mesmo período em que minha menstruação ficou irregular e comecei a ter calorões, e eu queria entender se pode ter relação”.

Essa frase faz um trabalho que “estou triste” não faz: ela entrega o contexto temporal. E, se a resposta for só “é a idade”, você tem todo o direito de pedir uma segunda opinião. Eu demorei dois anos pra pedir a minha, e o que mais me custou não foram os sintomas, foi ter acreditado que aquilo era o meu novo normal.

Se o que mais aparece no seu caso é irritabilidade e pavio curto, mais do que tristeza, tem um texto específico sobre ansiedade e irritabilidade na menopausa que talvez descreva melhor o que você está sentindo.

Perguntas frequentes

Como saber se é depressão ou perimenopausa?
Não dá pra saber sozinha, e nenhum sintoma isolado separa as duas. O que aumenta a suspeita de causa hormonal é o humor ter mudado no mesmo período em que apareceram fogachos, insônia e alteração no ciclo menstrual. As duas condições também podem existir ao mesmo tempo, e nesse caso ambas precisam de atenção.

Posso parar o antidepressivo se descobrir que é a perimenopausa?
Não por conta própria, em nenhuma hipótese. Interrupção sem acompanhamento pode causar sintomas de retirada e recaída. Se você e sua médica concluírem que faz sentido revisar o tratamento, essa mudança é feita de forma gradual e supervisionada.

A perimenopausa pode causar depressão em quem nunca teve?
Os estudos populacionais mostram risco aumentado de primeiro episódio depressivo durante a transição, inclusive em mulheres sem histórico. Isso não significa que vá acontecer com você, significa que é uma fase que merece mais atenção à saúde mental, não menos.

Terapia hormonal trata depressão?
Terapia hormonal não é um tratamento para depressão. Em casos selecionados, dentro de uma avaliação médica, ela pode entrar como parte da abordagem quando os sintomas de humor estão claramente ligados à transição hormonal. Quem define isso é a médica que acompanha você, considerando seu histórico completo.

Por que os sintomas emocionais parecem piores antes da menopausa do que depois?
Uma explicação apoiada nos estudos é que o problema não é o estrogênio baixo, e sim a oscilação. Na perimenopausa os níveis sobem e descem de forma muito mais brusca do que na pós-menopausa, quando já estão estáveis. Por isso muitas mulheres relatam que a fase mais difícil foi a de transição.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica nem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Não interrompa nem altere nenhum medicamento por conta própria. Se você tem pensamentos de morte ou de se machucar, ligue 188 (CVV, gratuito e 24 horas) ou procure atendimento imediato.

Foto de Regina Vasconcelos

Escrito por Regina Vasconcelos

Professora aposentada, 53 anos, vivendo a pós-menopausa e escrevendo sobre o que aprendeu no caminho, sem jaleco, com experiência real. Conheça a história completa →