Menstruação irregular na perimenopausa: o que é normal e o que investigar

por Regina Vasconcelos

Mulher madura pensativa a mesa da cozinha segurando o celular

Menstruação desregulada é o sinal mais comum da perimenopausa e, na maior parte das vezes, não é doença. O ovário vai perdendo o compasso, e o ciclo encurta, alonga, some por meses e volta. O que fica fora dessa conta de normalidade, segundo a Febrasgo, é ciclo que dura menos de 24 dias ou mais de 38, fluxo que passa de 8 dias, e sangramento que você mesma classificaria como intenso. Esses três pedem consulta, não paciência.

Eu tinha 48 anos quando menstruei onze dias seguidos. Lembro da data porque era semana de fechamento de notas, e eu passei aquela semana inteira com uma bolsinha extra na gaveta da sala dos professores. No quarto dia eu já tinha desistido de calça clara. No oitavo eu comecei a ficar com medo, e no décimo primeiro liguei pra Dra. Patrícia com aquela frase que eu tinha ouvido de tanta gente e nunca imaginei que fosse dizer: “acho que tem alguma coisa errada comigo”.

Não tinha. Ou melhor: tinha uma coisa muito comum acontecendo, que ninguém tinha me explicado antes. Mas a parte importante dessa história é que eu fui, e que valeu ter ido. Porque no meio do que é banal na perimenopausa existe um punhado de coisas que não são, e o único jeito de separar uma da outra é com quem pode examinar.

Mulher madura pensativa a mesa da cozinha segurando o celular

O que conta como ciclo normal, com números

Essa foi a primeira coisa que me surpreendeu quando fui atrás de material sério: existe uma definição numérica, e ela é mais larga do que a gente imagina. O Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80, publicado na revista Femina em 2026, adota os critérios da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia: são considerados anormais os ciclos que duram menos de 24 dias ou mais de 38, o fluxo que se estende por 8 dias ou mais, e o volume que a própria mulher descreve como intenso.

Reparou no terceiro critério? Ele não é um número. É a sua percepção. Isso não é frouxidão do protocolo, é reconhecimento de um fato prático: medir volume de sangue menstrual em casa é impossível, e o que realmente importa é o impacto na sua rotina. O mesmo documento diz isso com todas as letras, que se deve levar em conta o quanto o sangramento atrapalha a vida da paciente, além dos sinais de repercussão no corpo, como anemia.

Isso me tirou um peso. Eu tinha passado semanas tentando decidir se o meu fluxo era “objetivamente” muito ou se eu estava exagerando. A resposta é que se está atrapalhando, já conta.

Por que o ciclo desanda justo agora

A explicação curta é que o ovário passa a ovular de forma inconstante. Nos ciclos em que a ovulação não acontece, o corpo não produz progesterona na segunda metade do mês, e é a progesterona que organiza a descamação do endométrio, aquele revestimento interno do útero que sai na menstruação. Sem esse comando, o endométrio cresce mais do que deveria e depois sai de qualquer jeito: às vezes tarde, às vezes em excesso, às vezes aos pedaços, ao longo de dias.

O protocolo da Febrasgo registra que sangramentos por ausência de ovulação são mais frequentes justamente nos extremos da vida reprodutiva, ou seja, na adolescência e na perimenopausa. Faz sentido quando você pensa que são as duas fases em que o sistema está se ligando ou se desligando, e nenhuma das duas é um interruptor.

Se você quer entender melhor a linha do tempo inteira dessa fase, escrevi sobre quanto tempo dura o climatério, que costuma ser bem mais longo do que a maioria das mulheres espera.

Os quatro padrões que mais aparecem

Na prática, a bagunça costuma seguir um destes formatos, e às vezes vários deles alternando no mesmo ano.

O ciclo que encurta. Costuma ser o primeiro a aparecer, ainda na casa dos 40 e poucos. Você percebe que a menstruação está vindo de 24, 23 dias, quando sempre veio de 28. É um sinal precoce e passa despercebido com facilidade, porque a maioria de nós não anota. Falei mais sobre essa fase inicial nos primeiros sinais da perimenopausa aos 40.

O ciclo que estica. Depois vem o oposto: 35, 40, 50 dias. Aqui já dá aquele susto de contar os dias e pensar em gravidez, o que aliás continua sendo possível enquanto houver ovulação, assunto que tratei em dá pra engravidar na perimenopausa.

O fluxo que aumenta. Foi o meu caso, e é o que mais assusta. Muitas mulheres relatam coágulos, necessidade de trocar absorvente de duas em duas horas e vazamento à noite. Esse padrão é o que mais merece atenção médica, não porque signifique algo grave na maioria das vezes, mas porque é o que pode levar à anemia. O próprio protocolo da Febrasgo aponta o sangramento uterino anormal como a causa mais comum de anemia por falta de ferro em mulheres no período reprodutivo.

Os meses em branco. Dois, três, quatro meses sem nada, e aí ela reaparece como se nunca tivesse saído. Isso costuma gerar uma confusão específica, a de achar que a menopausa “foi cancelada”, que virou artigo próprio aqui no blog: por que a menstruação pode voltar.

Medica conversando com uma paciente em consultorio

Quando não é só perimenopausa

Aqui está a parte que eu mais gostaria de ter lido aos 48, então vou ser bem direta. A irregularidade da perimenopausa é comum, mas ela não é a única causa de sangramento fora do padrão nessa idade. E algumas das outras causas ficam justamente mais frequentes agora.

Pólipos endometriais, por exemplo, aparecem em algo entre 7,8% e 34% das mulheres com sangramento anormal, segundo o mesmo protocolo, e são mais comuns exatamente na perimenopausa e na pós-menopausa. A maioria é benigna, com potencial de malignidade estimado entre 0,5% e 3%. Miomas e adenomiose também entram na lista de causas estruturais que um ultrassom identifica.

A Febrasgo orienta que a biópsia de endométrio pode ser indicada quando há espessamento do endométrio, especialmente em mulheres com obesidade e acima de 45 anos, ou quando existem fatores de risco para câncer de endométrio. Os fatores citados no documento são obesidade, hipertensão, diabetes, nunca ter tido filhos, menopausa tardia e anovulação crônica, todos ligados a mais tempo de exposição do endométrio ao estrogênio.

Nada disso é motivo pra pânico, e a chance de o seu sangramento irregular aos 47 ser perimenopausa pura e simples continua sendo alta. O ponto é outro: essa é uma daquelas situações em que a consulta não é opcional, porque a diferença entre um caso e outro não se resolve pela sensação, se resolve com exame. E existe uma linha que muda completamente a urgência: qualquer sangramento depois de doze meses sem menstruar já não é perimenopausa, é pós-menopausa, e sempre precisa ser investigado. Escrevi sobre isso em sangramento pós-menopausa.

O que levar pra consulta

Eu cheguei na Dra. Patrícia com “faz uns meses que está estranho”, que é uma péssima informação. Da segunda vez eu levei um caderninho, e a conversa rendeu o triplo. O que ajuda de verdade é anotar, mês a mês, a data de início, quantos dias durou, e uma nota de zero a dez pro volume comparado com o que era o seu normal antes. Registrar também os episódios de vazamento e as trocas noturnas, porque são a tradução prática do que o protocolo chama de sangramento intenso.

Os exames que o documento da Febrasgo lista para essa investigação inicial são o beta-hCG, para descartar gravidez, o hemograma completo, e a avaliação por ultrassom para identificar ou afastar causas estruturais. Se houver suspeita de lesão focal, entram histeroscopia e biópsia. Não é um roteiro pra você pedir por conta, é pra você reconhecer o que está sendo feito e por quê, o que na minha experiência muda bastante a sensação de estar sendo levada a sério.

Uma coisa que também vale saber: nenhum exame isolado carimba “perimenopausa” no seu prontuário, e o diagnóstico continua sendo majoritariamente clínico. Expliquei o motivo em por que não existe um exame único que confirma a perimenopausa.

Tudo isso pressupõe que você consegue enxergar o seu ciclo. Quem toma pílula ou usa DIU hormonal não consegue, e esse caso eu tratei em perimenopausa tomando anticoncepcional.

Perguntas frequentes

É normal ficar quatro meses sem menstruar e depois voltar ao normal?
Na perimenopausa, sim, isso acontece com frequência. Os intervalos longos costumam aparecer na fase mais avançada da transição, e a volta da menstruação depois deles não significa que algo deu errado, apenas que ainda houve ovulação. A contagem dos doze meses que definem a menopausa é que reinicia do zero.

Quantos dias de menstruação já é demais?
Pelos critérios adotados no protocolo da Febrasgo, fluxo de 8 dias ou mais já é considerado fora do padrão e merece avaliação. Isso não quer dizer que seja grave, quer dizer que entra na conversa com a ginecologista em vez de virar rotina aceita em silêncio.

Menstruar duas vezes no mesmo mês na perimenopausa é preocupante?
Depende do intervalo. Se os dois sangramentos ficaram a menos de 24 dias um do outro, isso já está fora da faixa considerada normal e vale investigar. Também é importante diferenciar uma segunda menstruação de um escape no meio do ciclo, que tem outras causas possíveis.

Anticoncepcional resolve a menstruação irregular da perimenopausa?
Em muitos casos ele é usado exatamente pra isso, mas essa é uma decisão médica individual, que depende da sua idade, se você fuma, da sua pressão e do seu histórico. Nem toda mulher nessa fase pode usar todos os tipos, e a escolha muda bastante de uma pra outra.

Preciso me preocupar se o sangramento vem com coágulos?
Coágulos ocasionais podem acontecer em fluxo intenso. O que pede avaliação é o conjunto: coágulos frequentes, troca de absorvente a cada poucas horas, vazamento à noite e cansaço fora do comum, que pode indicar anemia. Vale levar esse quadro completo pra consulta em vez de cada sinal isolado.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Alterações no padrão menstrual têm várias causas possíveis, e só a avaliação da sua ginecologista pode dizer qual é a sua.

Foto de Regina Vasconcelos

Escrito por Regina Vasconcelos

Professora aposentada, 53 anos, vivendo a pós-menopausa e escrevendo sobre o que aprendeu no caminho, sem jaleco, com experiência real. Conheça a história completa →