Infecção urinária de repetição na menopausa: quando não é bactéria

por Regina Vasconcelos

Mulher madura enchendo um copo de agua na pia da cozinha

Ardência pra urinar, vontade de ir ao banheiro a toda hora e aquela sensação de infecção urinária que volta sempre: depois dos 50, isso nem sempre é bactéria. Infecção urinária de repetição é um dos sintomas da síndrome geniturinária da menopausa, um quadro causado pela queda do estrogênio nos tecidos da vagina, da uretra e da bexiga. Ele atinge de 36% a quase 90% das mulheres nessa fase, dependendo do estudo, e tem tratamento próprio, diferente de antibiótico.

Eu descobri isso da pior maneira, que é levando três rodadas de antibiótico em oito meses. Na terceira, eu já tinha decorado o gosto metálico do comprimido e tinha desenvolvido uma relação estranha com o banheiro do posto de saúde. Foi quando a Dra. Patrícia parou, largou a caneta e fez uma pergunta que ninguém tinha feito: “Regina, você está com ardência só pra urinar, ou está com ardência o tempo todo?”.

Eu nunca tinha separado as duas coisas. E a resposta, quando eu parei pra pensar, era: o tempo todo.

Mulher madura enchendo um copo de agua na pia da cozinha

O nome comprido que explica muita coisa

Síndrome geniturinária da menopausa é o nome atual de um conjunto de mudanças que antes era chamado só de atrofia vaginal. O nome mudou porque o antigo era estreito demais: o problema não fica só na vagina, ele envolve também a uretra e a bexiga, que são tecidos vizinhos e igualmente dependentes de estrogênio.

O documento da Febrasgo publicado na revista Femina descreve a síndrome como resultado da perda de estrogênio no trato geniturinário feminino, incluindo vagina, lábios, uretra e bexiga. Entre os sintomas listados estão secura, queimação e irritação genital, e do lado urinário a disúria (a dor ou ardência ao urinar), a noctúria (acordar à noite pra ir ao banheiro), a urgência e as infecções urinárias de repetição.

Leia essa lista de novo com calma. As infecções urinárias de repetição estão ali dentro, listadas como sintoma da própria síndrome. Isso é uma informação que muda o rumo da consulta, e quase nenhuma mulher recebe.

Por que a falta de estrogênio deixa a bexiga vulnerável

A vagina saudável mantém uma população de lactobacilos que produz ácido e deixa o ambiente com pH baixo. Esse ambiente ácido é uma barreira: ele dificulta que bactérias vindas do intestino se instalem e subam para a uretra, que na mulher é curta e fica logo ali ao lado.

O estrogênio é o que sustenta esse sistema. Com a queda hormonal, a mucosa afina, fica menos elástica e mais seca, a população de lactobacilos diminui e o pH sobe. O resultado é um ambiente que perdeu parte da própria defesa. Por isso as infecções passam a ser mais frequentes exatamente na mesma fase em que aparecem a secura e o desconforto, e por isso tratar só a infecção quando ela aparece é enxugar gelo: o terreno continua o mesmo.

Existe ainda uma armadilha adicional: os sintomas da síndrome geniturinária são parecidos com os de uma infecção. Ardência, urgência, desconforto ao urinar. Só que na síndrome eles não vêm de bactéria, vêm do tecido fragilizado. É por isso que aquela pergunta da minha ginecologista fazia sentido. Infecção urinária costuma ter começo, meio e fim. A síndrome geniturinária é um fundo constante, que às vezes piora, mas não vai embora sozinho.

Mulher madura segurando um copo de agua perto da janela

O que existe de tratamento

Aqui eu preciso ser cuidadosa, porque estamos falando de medicamento que só a sua médica pode indicar, mas acho importante você saber que existe caminho, porque muita mulher desiste achando que não existe.

O documento da Febrasgo aponta a terapia estrogênica por via vaginal como o melhor tratamento disponível para essa condição, e diz que a maioria das diretrizes considera o estrogênio tópico superior aos hidratantes vaginais, sendo o tratamento padrão. As formulações citadas são estradiol, promestrieno e estriol, e o esquema descrito é uma aplicação à noite durante 14 dias e depois manutenção de duas a três vezes por semana, enquanto os sintomas persistirem.

Para sintomas leves, hidratantes e lubrificantes vaginais entram como alternativa. E aqui vai um detalhe prático que quase ninguém conta: nem todo lubrificante é igual. O mesmo documento observa que produtos hiperosmolares podem irritar e causar toxicidade nas células da mucosa, o que não acontece com os iso-osmolares à base de água ou de silicone, e que microbicidas presentes em alguns produtos podem afetar a população de lactobacilos, justamente a defesa que a gente está tentando preservar. Se você usa lubrificante, vale olhar o rótulo com esse olhar novo.

Uma observação importante: mulheres com histórico de câncer de mama têm uma conversa própria a fazer, porque nesses casos a prescrição de estrogênio vaginal exige avaliação individual e concordância do oncologista. Não é um “não” automático, é um “depende” que precisa de médico.

O que não é a causa (e a culpa que vem junto)

Tem uma parte desse assunto que é sobre bactéria e tecido, e tem outra que é sobre vergonha. Vou falar da segunda, porque ela atrapalha o tratamento tanto quanto a primeira.

Quando as infecções começaram a se repetir, eu revirei a minha rotina inteira procurando o que eu estava fazendo de errado. Passei a tomar banho depois de qualquer coisa, troquei toda a minha roupa íntima por algodão, cortei o que eu achava que podia estar irritando. Não era nada disso. A causa era hormonal, do tipo que higiene nenhuma resolve, e eu tinha passado meses me tratando como responsável por um problema que não tinha nada a ver com o que eu fazia ou deixava de fazer.

Isso não significa que os cuidados gerais deixem de valer. Urinar depois da relação, não segurar urina por horas e manter boa hidratação continuam sendo orientações razoáveis. O que muda é o peso que a gente coloca neles. Eles são coadjuvantes, não são a explicação de por que isso começou aos 52 e não aos 32.

Uma coisa que vale evitar, aliás, é a limpeza excessiva com produtos perfumados e duchas internas, que mexem justamente no equilíbrio da flora que a gente está tentando preservar. Nessa fase, menos costuma ser mais.

O que perguntar na consulta

Se você já tomou antibiótico mais de duas vezes no último ano por infecção urinária, ou se o desconforto continua mesmo depois do tratamento terminar, vale levar a pergunta pronta: “os meus sintomas urinários podem estar ligados à síndrome geniturinária da menopausa?”.

Essa frase específica muda a consulta, porque nomeia o quadro. E ajuda muito levar junto três informações: quantas vezes você tratou infecção no último ano, se o resultado do exame de urina confirmou bactéria em cada uma dessas vezes, e se você tem também secura, ardência ou dor na relação. Esse último item é o que costuma amarrar o diagnóstico, e é o que a maioria de nós não menciona por vergonha. Eu não mencionei nas duas primeiras consultas.

Vale dizer que esse é um dos assuntos mais silenciados da menopausa inteira. O mesmo documento da Febrasgo registra que uma parcela grande das mulheres com sintomas de atrofia vaginal simplesmente não leva o assunto ao profissional de saúde. Ou seja, o problema não é falta de tratamento, é falta de conversa. Se você deixou de ir ao ginecologista depois que a menstruação parou, o que é comum, escrevi sobre de quanto em quanto tempo voltar à consulta nessa fase.

Se você quer entender o quadro completo, escrevi separadamente sobre ressecamento vaginal, sobre escape de urina e sobre o que muda na libido. Os três fazem parte do mesmo conjunto e costumam aparecer juntos, ainda que a gente trate cada um como um problema separado e isolado.

Perguntas frequentes

Toda infecção urinária depois dos 50 é síndrome geniturinária?
Não. Infecção urinária por bactéria continua existindo e continua precisando de tratamento adequado, inclusive antibiótico quando indicado. O ponto é que quando as infecções se repetem, ou quando os sintomas continuam mesmo sem infecção confirmada, vale investigar se a síndrome geniturinária está por trás.

Beber mais água resolve?
Hidratação faz parte dos cuidados gerais, mas não corrige a causa hormonal do problema. Se o tecido está fragilizado pela queda do estrogênio, água nenhuma reverte isso sozinha. Serve como medida de apoio, não como tratamento.

O estrogênio vaginal é a mesma coisa que reposição hormonal?
São coisas diferentes em dose e em alcance. A terapia vaginal age localmente e em dose baixa, enquanto a terapia hormonal sistêmica trata o corpo todo. A escolha entre uma e outra, ou o uso das duas, é decisão médica individual baseada nos seus sintomas e no seu histórico.

Os sintomas melhoram sozinhos com o tempo?
Ao contrário do fogacho, que tende a diminuir com os anos, os sintomas geniturinários costumam persistir ou piorar se não forem tratados, porque a causa é a falta contínua de estrogênio no tecido. Essa é uma das diferenças importantes entre esse grupo de sintomas e os outros da menopausa.

Quantas infecções por ano já contam como de repetição?
Na prática clínica costuma-se considerar repetição a partir de duas ou três ocorrências no período de um ano. Se você está nessa faixa, vale levar o histórico completo à consulta em vez de tratar cada episódio como um evento isolado.


Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Sintomas urinários têm várias causas possíveis, e infecção urinária não tratada pode trazer complicações. Procure sua ginecologista ou seu médico para avaliação e diagnóstico.

Foto de Regina Vasconcelos

Escrito por Regina Vasconcelos

Professora aposentada, 53 anos, vivendo a pós-menopausa e escrevendo sobre o que aprendeu no caminho, sem jaleco, com experiência real. Conheça a história completa →